Pelo título poder-se-ia supor que, estranhamente, iria sugerir neste espaço uma boa receita barata com um sucedâneo de bife ou fazer publicidade a algum restaurante aqui de Matosinhos, tipo a muy nobre, quase mítica, “Marisqueira dos Pobres” dos meus bons amigos Norberto e família, mas não… Passo a então a explicar o que aqui me traz…
De há algum tempo para cá tenho vindo a fermentar uma paixão por fotografia de aves em geral e, particularmente, de aves em voo (Birds in flight – “BIF“).
Para quem me tem acompanhado já se apercebeu que tinha tentado outras lentes, a excelente Sigma 120-300 2.8, não DG, com ou sem os TC,s 1.4 e 2 e a muito acessível Sigma APO 120-400mm f/4.5-5.6 DG OS HSM.
Esta Sigma, a APO 120-400mm f/4.5-5.6 DG OS HSM, como disse, muito acessível (660 euros no Jesus da Fotocinecolor), acabou por me surpreender pela leveza, pela razoável rapidez de focagem e pelo OS (anti-tremideira) que funcionava bem para aves paradas e aves em voo. Tinha, para mim, no entanto, um senão: para trabalhar com distâncias focais perto dos 400 mm com alguma qualidade via-me obrigado a fechar o diafragma para 8 ou 11, o que para além de me aborrecer, invibializava a fotografia na mão quando a luz era mais fraquita. Por outro lado aquele desfoque agradável a que costumamos chamar bokeh quase que deixou de existir na minha fotografia. Além disso, mesmo sem querer, via-me muitas vezes a compará-la em termos de qualidade de imagem com a 120-300 2.8 (injustamente atendendo à diferença de preços). Também, sinceramente, não fiquei lá muito fã do tamanho que a objectiva adquiria quando “zoomava” para os 400 mm. Acabei por a vender práticamente nova. Era, pelo que me fui apercebendo, por trabalhos e comentários que vi na net de outras lentes iguais, uma excelente cópia, claramente acima da média (tinha tido uma primeira cópia que devolvi porque a qualidade, quer mecánica, quer de imagem, não me satisfazia de todo).
A Sigma 120-300 2.8, por outro lado, é uma lente do outro mundo… Tem tudo de bom: é preta (não dá tanto nas vistas como as brancas Canon), a qualidade de imagem é boa (mesmo em 2.8), é rápida a focar, a flexibilidade do zoom (com qualidade em todas as distâncias focais) dá jeito nalgumas circunstâncias e o preço até é aceitável (eu comprei-a mais barata usada mas o preço, nova, ronda os 2400 Euros). Com o TC 1.4 mal se nota degradação quer de imagem quer de velocidade de focagem. Com o TC 2 nota-se um ligeiro decréscimo quer na qualidade de imagem quer na velocidade de focagem mas nada que inviabilize a obtenção de excelentes fotos, assim surjam as oportunidades. Assim sendo – dirá o meu amigo leitor – o problema está resolvido, i.e., consegues distâncias focais com o TC 2X e com o teu factor crop 1.6 da 50D, no limite, acima duns fabulosos 900 mm e isto tudo por um preço razoável para o tipo de fotografia em causa. Ora, as coisas nem sempre são o que parecem, isto é, a malandra da lente com os seus 3 kgs não muito ergonómicos (digo eu), não me permitem fazer nem que seja uma só fotografia na mão. Para além disso obrigou-me a pôr-me para aqui a inventar em termos de suporte, tripé e cabeça. Acabei por solucionar a coisa de forma relativamente barata com um tripé e uma pequena cabeça Manfrotto de cinema.
Para mal dos meus pecados esta 120-300, de repente, começou a ficar míope. Está agora na representante da Sigma a limpar os ranhosos dos fungos e à espera de um empanque da parte traseira da lente que apresentava desgaste que, ao que me disseram, acabou de chegar da casa mãe.
Ora bem, já há muito tempo que andava de olho na Canon 400 5.6, ligeira e com boas criticas de quem anda no terreno. Vendo-me de repente sem tele, impossibilitado portanto de “matar o bicho”, nada mais me restou (…
…boas desculpas) que acabar com o resto do plafond do cartão de crédito. Mandei-a vir e não me arrependi. É sobretudo sobre ela que vos quero falar, numa mini review, à minha maneira (despretenciosa e pouca técnica já que de engenharia percebo pouco). O último parágrafo destina-se a clarificar melhor aquela coisa do “Bife dos Pobres”.

A Canon Ef 400mm f/5.6 L USM não é - longe disso - um modelo recente, não tem IS e nem sequer me parece que possa ganhar algum concurso de beleza. Então qual a razão da compra:
I) É leve, muito leve e robusta. Ando o dia todo atrás das aves e não me canso. Seguir uma ave em voo por perídos às vezes até longos é possível. Fazes dela um “gato sapato”…
II) O para-sol embutido é prático, muito prático (ver imagem).
III) É silenciosa e rápida a focar (eu diria, é “supersónica”).
IV) Embora aqui e ali se consiga detectar uma ou outra “aberração cromática” (se se quiser ser chato e andar à procura delas), no dia a dia, considero-as irrelevantes. Dou uma boa nota aqui também à Canon pela forma como as conseguiu controlar.
V) Saturação e contraste são fabulosos, largamente superior, p. ex., à Sigma 120-300 de que vos falei há pouco.
VI) O Bokeh é muito agradável embora não nos possamos esquecer que se trata de uma 5.6.
VII) Vinhetagem : nunca vi.
VIII) Nitidez: francamente boa, superior à da minha Sigma 120-300 antes da miopia (…
…). Podes, se quiseres, trabalhar o tempo todo em f/5.6 sem te arrependeres. Se fechares para 8 ou 11 até podes conseguir uma ligeira melhoria mas é muito marginal.
IX) Não tem IS (anti-tremideira): Sinceramente esta ausência não me perturba rigorosamente nada. Num país como o nosso, com sol (graças a Deus), basta abrires o diafragma a 5.6 e assegurares-te que a velocidade não baixe dos 1.000/1.200 (por aí) e podes seguir fotografando com prazer. Se for preciso podes sempre usar os bons ISOS actuais e, no limite, um monopé para ajudar. Tenho utilizado pouco o tripé, ao contrário do que acontecia com a Sigma 120-300 que me obrigava a utilizá-lo permanentemente. (Nota: Pela minha pouca experiência, no caso particular das aves em voo, o IS até nem tem uma utilidade assim tão grande…)
X) Estanticidade: a lente não é estanque. Se começar a chover pesado abriga-te.
XI) PREÇO: UM ACHADO!
Resumindo: trata-se da melhor lente tele qualidade/preço que tive até hoje a que se pode dar uma utilidade geral mas que brilha na fotografia de vida selvagem e, sobretudo, nas aves em voo onde não vejo que possa haver melhor.
O tal último parágrafo para explicar melhor os “bifes baratos”:
É evidente que o que eu gostaria de ter era uma 7D ou, de preferência, uma 1D IV a que lhes acoplaria as fabulosas Canon 500, 600 ou 800 com ou sem TC,s. Isso para mim, para já, e se calhar para alguns que me lêem, é quase impossível. A 400 5.6 acoplada a uma 50D poderá custar uns 2.000 Euritos, longe dos 10.000/15.000 que, em média, um aficionado com posses dos BIF gasta (máquina, lente, tripé e cabeça). É evidente que tens algumas limitações com o “bife para pobre” (50D + 400 5.6) mas tens liberdade de acção, podes correr se te apetecer, podes esconder-te. Num dia com algum sol, mete uma bateria e um cartão extras no bolso e podes estar o dia todo a deambular pelos campos ou pela praia sem te cansares, gozando plenamente o teu hobby.
Um dia, eventualmente, poderei vir a comprar outra máquina e outra lente (500/600/800) para este efeito mas, mesmo assim, não me estou a ver a prescindir desta 400 5.6 (a não ser que a Canon avance para uma 500 5.6 semelhante, i.e., leve, ergonómica e com igual performance).
Notas importantes:
1) Não tenho, nem nunca tive qualquer acordo com a Canon (se calhar infelizmente…
…) ou com qualquer outra marca de material fotográfica. Quem me conhece sabe que estas reviews despretensiosas se destinam apenas a partilhar experiências.
No caso particular desta review pretendi também tentar evitar que outros, como eu, façam alguns erros como os de adquirir material que não se adequa, com os habituais gastos desnecessários. Se o conseguir num ou noutro caso sinto-me realizado.
2) É comummente aceite que a 500 f/4 com um TC 1.4 faz um excelente trabalho e tem preços intermédios. Se optares por esta talvez não te arrependas mas é outra lente, i.e., não te permitirá tanta liberdade. Uma 500 com ou sem TC 1.4 atinge mais longe que a 400 5.6, é claro, mas não te dá tanta liberdade e precisas de bom tripé e cabeça. Se puderes ter as duas é óptimo… …
Ainda não tenho muita coisa de aves e Bifes para mostrar mas se alguém se quiser dar ao trabalho de passar pelo www.zacariasdamata.com já lá podem ver alguns exemplos de imagens obtidos com a 50D + 400 5.6.
Perafita, 20 de Dezembro de 2009