2007/02/23

Jorge Henriques - Uma exposição que deu que falar

Embora tenha a noção da carga negativa do termo que me foi dado a conhecer pelos colegas mais velhos no início dos anos 70, sinceramente, pouco me importa que o Jorge Henriques tenha sido "salonista" ou não...

Aliás quando comecei a tentar trabalhar de forma mais séria a imagem em 1973/74, tudo era classificado e nada estava bem... Estavamos em tempo de mudança, em ebulição... O cinema português, a que estava particularmente atento, estava já em mudança há mais de uma década e, sinceramente desiludidos, alguns putos como eu, embora baixinho, iam gritando que o "rei ia nú"... De facto a grande produção das décadas de 30, 40 e 50 tinham acabado e eram considerados trabalhos vergonhosos enquanto que coisas quase sem sentido, "modernas", que pouca gente via e que hoje ninguém vê,  eram consideradas obras primas, coisas que ninguém se atrevia a criticar com medo de serem carimbados de incultos ou de "cromagnons"...

Agora que eu e mais alguns putos continuavamos a gritar - embora baixinho Smile - que o rei ia nú, lá isso continuavamos... Alguns desses putos hoje estão na organização de eventos que nos honram, o "Fantas" por exemplo, ou a trabalhar na América nesta área muito competitiva, com algum sucesso...

Por isso pouco me importa que classifiquem o Jorge Henriques seja do que for, o que me interessa é o resultado...

E o resultado, aquele que eu pude ver já depois da sua morte numa exposição no Centro Português de Fotografia, foi uma coisa assombrosa... Sem que eu tenha acesso, como muitos de nós portugueses, por falta de dinheiro, aos grandes espaços de Nova York, vou aproveitando o pouco que temos e, do pouco que temos, isto foi do melhor que vi até hoje, pela qualidade do trabalho, pela qualidade das impressões e pela disposição e espaço nobre que ocupava...

Só posso dar os meus sinceros parabéns às minhas professoras e amigas, Siza e Maria do Carmo, por esta e outras mostras de grandes fotógrafos portugueses. No entanto, porque eu sei que me hão-de ler e porque nem tudo são flores, deixai que o puto irrequieto e que às vezes incomodava com perguntas e afirmações despropositadas e anacrónicas, agora quase com 50 anos, vos diga:

Não se compreende que durante estes já largos anos de actividade do Centro Português de Fotografia, não tenha havido uma única exposição de fotógrafos da nova vaga, contemporaneos e pós foto.pt...

Agora já uso óculos de lentes progressivas mas dá-me a impressão que o rei continua a ir nú... 

 

 

P.S.. Gostaria de vos mostrar algumas imagens deste grande fotógrafo português mas foi-me impossível encontrar algo acessível. Espero, no entanto, que este artigo vos provoque vontade de pesquizar e de saber um pouco mais... Posso sugerir que comecem pelo CPF... O tabalho deste homem, garanto-vos, é inspirador...

 

Estas duas não são do Jorge, são do Zacarias feitas num domingo de manhã...Wink...

 

Perafita, 23 de Fevereiro de 2007

www.zacariasdamata.com 

 

 

Escrito por Zacarias Pereira da Mata em 20:43:15 | Link permanente | Comments (7) |
Comentário
1 - O século XIX continua muitas vezes a formatar-nos a mente e a impelir-nos para a necessidade da classificação. Salonista ou não (um termo que nos remete para as artes oficiais do século XIX francês) este é um fotógrafo que eu gostava de conhecer melhor...

Abraço (Comentar)

Escrito por: João castela Cravo em 2007/02/24 - 00:47:34
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2 - João castela Cravo,

No seguimento deste teu comentário, resolvi ensaiar um artigo sobre o "salonismo" que apresentarei em breve.

Estou, é claro, de acordo com o que dizes...

Abraço! (Comentar)

Escrito por: Zacarias Pereira da Mata em 2007/02/25 - 13:33:09 em resposta a: 1
3 - este meu comentário vem tarde, é certo mas, mesmo assim, vou escrevê-lo, mais vale tarde que nunca... Não sei ao certo o que significa ser (Comentar)

Escrito por: Nana Sousa Dias em 2007/06/08 - 22:58:23
4 - este meu comentário vem tarde, é certo mas, mesmo assim, vou escrevê-lo, mais vale tarde que nunca... Não sei ao certo o que significa ser "salonista", nem quero saber, pois, se o termo é usado para tentar depreciar a arte de um fotógrafo como o Jorge Henriques, não vale a pena saber para que serve esse termo. Para mim, há 2 tipos de fotógrafos, os bons e os outros, os que "têm" máquinas fotográficas (tal como a minha mãe e o meu pai, que, não é por isso que deixam de ser boas pessoas! Apenas pertencem a outra classe ;). Ora bem, o Jorge Henriques pertence obviamente à primeira categoria, não tive a oportunidade de ver as suas fotografias ao vivo mas, vi em livro e fiquei muito bem impressionado. Pesando bem a coisa, prefiro utilizar a expressão "salonista" à rapaziada que, marcando bem a sua posição, se intitula não fotógrafa mas, sim, utilizadora da fotografia como "veículo de expressão artística"! E, assim, lá vão ganhando todos os prémios disponíveis, neste "portugal dos pequeninos", mesmo não querendo ser rotulados de "fotógrafos", ora bem, que isto é tudo gente fina e letrada e isso de ser fotógrafo não cai bem a quem "estudou". O Jorge Henriques? Não, esse era mesmo Fotógrafo...e dos bons! 1 abraço, Zacarias Nanã Sousa Dias (Comentar)

Escrito por: Nana Sousa Dias em 2007/06/08 - 23:00:12
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5 - Nana Sousa Dias, lá estás tu com a tua irreverência... Pareces quase um vareiro das Caxinas e Matosinhos que eu conheço... :) ... Obrigado pela visita. Grande abraço!!!!! (Comentar)

Escrito por: Zacarias Pereira da Mata em 2007/06/08 - 23:28:06 em resposta a: 4
6 - Pois é, Zacarias, isto não é irreverência, é inconformismo, chamar os bois pelos nomes, sem medo. Se metade da população deste paízeco fizesse o mesmo, talvez o Dr. Salazar não tivesse ganho as "eleições", ainda por cima, da primeira vez, na VIDA, em que foi a votos...e, ainda por cima, depois de MORTO! ;-) Talvez deixássemos de ter a classe administrativa mais bem paga da UE, tendo, simultaneamente, a classe operária mais mal paga da mesma UE e, talvez tudo isto entrasse nos eixos. Além de tudo isto, temos esta tradição maldita, que é a de não lidarmos bem com o que é nosso, preferindo prestar vassalagem ao que vem "de fora"... Isto provoca-me sempre azia cerebral...para não referir partes mais pudengas do corpo humano... Se o homem (Jorge Henriques) tivesse vivido em Paris, se tivesse um apelido aristocrático-empresarial ou, até, quiçá, utilizasse a fotografia como "veículo de expressão artística" ;-) (perdoem-me mas, não me canso de escrever isto...continua a ser fundamental, para o bom equilíbrio do meu metabolismo!!!!), passaria de "salonista" a génio incompreendido, por parte dos seus "pares do reino"! A isto, seguir-se-ia a Glória e a Fortuna...isto, claro, depois da revolução dos cravos (ou deverei dizer:-da revolução dos escravos?!) + 1 abraço, Nanã Sousa Dias (Comentar)

Escrito por: Nana Sousa Dias em 2007/06/09 - 01:10:58
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7 - Nana Sousa Dias,

Estamos mesmo a precisar desse inconformismo de que falas, na arte (fotográfica ou não) e na vida actual deste país.

Como provávelmente te apercebeste nos artigos sobre o chamado "Salonismo" ( e noutros neste blog) é contra o preconceito e a classificação (tipo carimbo) que me insurjo.

Como diz habitualmente, muito à Matosinhense, um amigo meu: "havia mais umas coisas para dizer mas fica assim..."

... di-las-ei a seu tempo...

Grande, grande abraço!

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Escrito por: Zacarias Pereira da Mata em 2007/06/13 - 00:45:43 em resposta a: 6
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