2007/02/25

Fotografia Salonista

W. Luthy - Rollei Annual 1951

 

Este artigo não pretende ser o ensaio definitivo sobre o "Salonismo"... Nunca o poderia ser até porque a própria palavra "ensaio" que escolhi para definir este meu artigo é precisa, i.e., quer dizer isso mesmo: ensaio/estudo/abordagem/tentativa...

Por outro lado também não tenho tanto tempo assim e, assumo que, se calhar, não estarei particularmente à vontade nas definições das grandes correntes, modas e "estares", da fotografia e da arte em geral...

Mas da mesma forma que há dias ensaiei uma definição de "surrealismo" que, parece, até deu para perceber, voltarei a tentar o mesmo para o "Salonismo fotográfico"... Desta vez, no entanto, acrescentarei algumas considerações pessoais acerca desse fenómeno com os riscos inerentes às apreciações subjectivas...

Este artigo surge um pouco na continuação do comentário do João Cravo ao artigo imediatamente  anterior deste blog sobre o Jorge Henriques em que diz : "O século XIX continua muitas vezes a formatar-nos a mente e a impelir-nos para a necessidade da classificação. Salonista ou não (um termo que nos remete para as artes oficiais do século XIX francês) este é um fotógrafo que eu gostava de conhecer melhor..." 

A classificação a que se refere o João espartilha e turva, bastas vezes, a análise e a crítica a uma determinada obra. Acontece inevitávelmente com o chamado "Salonismo" e, se calhar,  de forma mais visível... Perceberão melhor esta afirmação minha mais lá para o fim do artigo...

No entanto, como já o disse em artigo anterior, classificações e definições ajudam no diálogo e na comunicação em geral... Passarei assim à prometida tentativa de definição, o mais terra a terra possível, como é meu hábito...

À semelhança do que diz o João entendo que a génese do salonismo deve ser procurado nalgum formalismo do século XIX. Esta não é porém a minha área e deixarei isto para historiadores e investigadores... Limitando-me apenas por isso ao concreto "salonismo fotográfico" do período que se seguiu à 2ª guerra (embora se praticasse desde os anos 30) e que se extendeu até ao fim dos anos 60 e princípios dos anos 70 direi que o "Salonismo" era um tipo de foto praticada quase exclusivamente por amadores, normalmente com algum dinheiro, que utilizavam o seu Domingo  para obterem os melhores "clichés" possíveis para levar a concurso. O melhor fotógrafo era o que conseguia ao longo do tempo mais taças, medalhas e menções, tal qual acontece hoje na pesca desportiva, por exemplo. Por isso não ousavam muito, obedeciam às regras mais formais da fotografia, quer no momento do "click" quer no laboratório... O desígnio final era conseguir aparecer nos anuários da "Rollei"... 

Se se percebeu a definição, talvez se entenda melhor agora, o porquê da agressividade dos anos 70 contra esta prática fotográfica quase ancestral... O novo fotógrafo dos anos 70 fazia a chamada "fotografia casual", tabalhava na sua maioria apenas com 35 mm, era avesso à encenação, estava contra o "regime" (nas duas interpretações possíveis neste caso: arte dominante instituida e regime político) e usava calças de ganga... Bresson e a "Magum" estavam sempre presentes...

Ao ler-se os dois parágrafos anteriores pode ficar-se com a impressão que os bons estão dum lado e os maus do outro... Ora, nem tudo é assim tão simples...

Os chamados salonistas, de facto, na sua maioria, pertenciam a uma classe média dominante. Eram pessoas sofisticadas, possuidores de equipamento ao nível do melhor da época e tinham, quase sempre, sobretudo em Portugal, a complacência e às vezes o incentivo do antigo regime político. Eram defensores aguerridos do formal, criticando duramente quem avançasse com montagens e/ou trabalhos mais criativos de laboratório; até os enquadramentos menos formais eram recusados. Algumas destas técnicas e enquadramentos mais arrojados, liminarmente recusados pelos salonistas e pelos seus concursos, felizmente, são hoje usados com frequência. O salonista pela sua sofisticação e inteligência, no entanto, não deixava de apreciar as novas tendências (Bresson e "Magnum" de que falamos há pouco, p.ex.) e era capaz de adaptar o seu trabalho (vejam-se as fotografias de rua)...

Ora, no meio de tudo isto, das camisas de força a que se auto-submetiam, na sua necessidade de vencerem concursos, recorrendo a expedientes como a encenação de rua (p.ex), havia gente muito capaz, com trabalhos fabulosos que hoje já ninguém conhece porque a sociedade entendeu penalizá-los pelo esquecimento. É um pouco contra isto que me oponho. Entendo que os grandes trabalhos não podem, não devem ficar esquecidos, independentemente da sua proveniência...

Tsuguo Yanagiya - Rollei Annual 1951

Em relação à encenação usada com frequência (mesmo de rua) a que me acabei de referir, devo dizer que não me oponho. Há quem diga que "Bresson" o fez... Se a encenação for cuidada, não utilizada para desvirtuar/esconder/lançar poeira, não me oponho... Às vezes tenho pena de hoje não se conseguir tão fácilmente  a conivência dos fotografados...

Alguns salonistas eram sérios, com bom gosto, alguns até na minha humilde opinião, verdadeiros artistas, muitos não ligados ao regime (pelo menos ao político). Gostavam daquilo que faziam e faziam-no na perfeição; era a sua arte, com regras, limitativo, mas era a sua arte, a sua paixão... 

Por isso e pelas imagens que vão ver espero que agora entendam aquilo que disse há pouco: A classificação a que se refere o João espartilha e turva, bastas vezes, a análise e a crítica a uma determinada obra. Acontece inevitávelmente com o chamado "Salonismo" e, se calhar,  de forma mais visível... 

Fui procurar nos livros cá de casa e encontrei três livros da época, entre os quais dois anuários da Rollei dos anos 50 onde foram impressas as fotografias vencedoras dos famosíssimos concursos mundiais da Rollei, na minha opinião, paradigma do salonismo fotográfico mundial que grassava.

As imagens deste artigo e dos que se seguirão sobre este tema foram digitalizadas desses livros. Infelizmente algumas imagens não são possíveis de recuperar porque o papel utlizado para a impressão (parecido com o fotográfico), com a humidade e com os anos, possibilitou a colagem dumas folhas às outras. O descolar é complicado e trás invariávelmente danos...

Espero que gostem.

Hajime Uchida - Rollei Annual 1951

Vagn Hansen - Rollei Annual 1951

K. L. Kothary - Rollei Annual 1951

Tom Chan - Rollei Annual 1951

Hans D. Tamke - Rollei Annual 1951

Jan Beran - Rollei Annual 1951

Hanni Haase - Rollei Annual 1951

Walter Studer - Rollei Annual 1951

A título de coclusão:

. Também não faz mal saber as regras da fotografia, sobretudo para que se saiba que as estamos a quebrar. 

. É evidente pelas imagens que aqui vemos que há muita qualidade e interesse o que confirma a minha ideia de que não nos devemos deixar levar pela classificação (pelo menos de forma preconceituosa) na apreciação dos trabalhos.

. Ainda hoje há reminiscências desta corrente, principalmente nos Clubes ("salões"), por exemplo, de Inglaterra, onde se vê com frequência imagens de senhoras feitas em estúdio de cigarro na mão, em poses pseudo-naturais ...

 

Voltarei a este período, agora só com imagens digitalizadas dos três livros que possuo.

 

Perafita, 25 de Fevereiro de 2007

 

www.zacariasdamata.com

 

 

Escrito por Zacarias Pereira da Mata em 12:03:06 | Link permanente | Comments (0) |
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