2006/11/28

Filhos de Njord

Há quem diga que viesteis do Norte, muito do Norte...

Há quem diga que sois os filhos de Njord...

Há quem diga que sois apenas enteados... 

 

 

Aos que ousaram partir, aos que regressaram e aos que nunca o puderam fazer para contar a sua saga...

 

 

Homenagem aos meus irmãos pescadores e marinheiros da Póvoa de Varzim, das Caxinas e da Poça da Barca

 

Matosinhos, 28 de Novembro de 2006

Zacarias Pereira da Mata

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2006/11/27

Quanto do teu sal...

 

Cabo do Medo #1

 

Cabo do Medo #2

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. *

 

 

Sonho

 

*Fernando Pessoa, Mensagem

 

 

Retrato de Fernando Pessoa por Vitorino Braga

 

Zacarias Pereira da Mata

27 de Novembro de 2006

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2006/11/26

Castro de S. Paio

Quem, como eu, anda por estes caminhos tortuosos à volta do Castro de S. Paio em Labruge,  não pode deixar de fazer algumas comparações com a Irlanda...

De facto, para além da permanente humidade no ar e do barulho das ondas que se torna quase ensudercedor nos dias e noites solitários de Outono e Inverno, pressente-se a presença, às vezes quase física, dos pescadores do Castro há muito desaparecidos, dos feiticeiros e adivinhos, dos velhos e veneráveis druidas e das bruxas que, no alto da colina que espreita sobre o oceano, deixam o seu cabelo dourado esvoaçar... 

Venham comigo e ouçam o vento que traz o murmúrio de velhas histórias...

 

 

 

 

 

 

Prometo trazer mais fotos de Labruge brevemente e, se calhar, com uma ou mais histórias de encantar a acompanhar. É claro que podem ir sempre a www.zacariasdamata.com e tentar adivinhar como vai ser... Wink ...

 

P.S.: Aos meus amigos fotógrafos mais novos que, eu sei, estão há espera de mais um artigo do tipo do "Nocturno da Ursa" do dia 25 de Novembro de 2006, com acção fotográfica e com informações importantes de como se fez, peço-vos um pouco de paciência. Não perdem por esperar... ... ... ...

 

Escrito por Zacarias Pereira da Mata em 22:11:34 | Link permanente | Comments (0) |

Boa Nova

... A Boa Nova é um sítio cantado, encantado e que ainda encanta ...

 

 

 

Na praia da Boa Nova, um dia
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia
Todo de lápis-lazuli e coral*

 

 

 

 

  *António Nobre (1867-1900)

Nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, a 16 de Agosto de 1867. Completou o ensino preparatório na cidade onde nasceu e em 1888 ingressou na Faculdade de Direito de Coimbra. As duas reprovações sucessivas no 1º ano determinaram, em 1890, a sua ida para Paris, onde frequentou a Escola Livre de Ciências Políticas e a Faculdade de Direito, nesta se licenciando em 1895. Regressando a Portugal com uma pneumonia em estado avançado, fez concurso para a diplomacia, em cujo concurso foi admitido, embora a sua saúde, profundamente abalada, tivesse tornado impossível a sua nomeação para cônsul em Pretória. Colaborou em jornais brasileiros para fazer face à dificuldades financeiras. Autor de poesia filiada no "simbolismo decadentista" (Manuel Pinheiro Chagas chamava-lhe "lamúria babosa"), fora próximo das hostes republicanas e seria Sampaio Bruno a editar os seus versos póstumos. Poeta d'o coração desfeito em tiras, é autor do livro de poemas "Só" - "o mais falado e o mais procurado dos livros" na sua época - "A Torre de Anto", e "Primeiros Versos". «Despedidas», edição póstuma, de 1902, compreende os versos escritos de 1893 a 1899, ano que precedeu imediatamente o da morte do poeta. Morreu tuberculoso a 18 de Março de 1900, com 33 anos.

 


© FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

 

 

 

Zacarias Pereira da Mata

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2006/11/25

Nocturno da Ursa

...ou de como se fez com a ajuda dos meus Santos...

 

Os homens da meteorologia tinham previsto tempo enevoado, vento moderado com possibilidade de chuva e vagas de 3 a 4 metros para aquela noite...

Comecei a descida para a praia da Ursa com aquela previsão a remoer-me a cabeça. Recusava-me a aceitar que tinha marcado as férias de forma a coincidir com a lua cheia de Maio e que tinha feito mais de 300 Kms para nada. O Zé*, meu amigo e companheiro desta e de outras aventuras fotográficas, caminhava ao meu lado, preocupado. Conseguia ler-se no entanto no seu semblante que - como eu - acalentava a secreta esperança que, no fim, tudo iria correr bem...

Chegados finalmente à praia, depois duma descida de respeito principalmente quando se carrega uns 30 ou 40 quilos de material e viveres, deparamos com um cenário e tempo magníficos que rápidamente nos fez esquecer as agoirentas previsões. Estavamos já no fim da tarde e não perdemos tempo, tendo de imediato começado a fotografar. Quando dei por ela tinha já gasto dois rolitos de 35mm e outros tantos de 120... O crepúsculo daquele dia tinha estado à minha feição e não o desperdicei...

Com o início da noite chegaram as nuvens, carregadas e feias. Com elas regressaram os meus receios... De facto, não se via a lua e o tão ambicionado luar era, naturalmente, quase inexistente. Para agravar as coisas a intensidade do vento aumentava de minuto a minuto e as vagas cresciam de forma exponencial.

Às duas da manhã, saturado da espera por uma lua que nunca mais descobria, montei o Manfrotto e coloquei-lhe em cima o único equipamento que ainda trabalhava com aquela humidade, a Pentax 6X7. Optei por uma objectiva Takumar de 75mm e pelo meu fiel Provia 100F. Como costumo fazer, abri o diafragma em f:8 e decidi-me, por palpite, por três tempos de exposição, 20, 40 e 60 minutos, longe dos habituais 5, 7 e 10 minutos em situação normal de céu limpo em noite de lua cheia.

Aquela praia, meu Deus, quase não existe na maré cheia... O mar partia a 10 metros e comecei a temer que chegasse ao sítio onde eu estava, apesar de estarmos o mais possível encostados à falésia. Temia por mim e pelo Zé, pelo equipamento e pelas fotos que, entretanto, se iam lentamente formando na película.

Dei por mim a pedir aos meus Santos que o mar não chegasse à falésia, que o tripé conseguisse resistir ao vento e que me dessem dois ou três minutos de verdadeiro luar para dar o necessário relevo à pedra da Ursa, sem o qual, toda a viagem e sacrifício poderiam ser quase em vão.

Eis senão quando, como por milagre, à 2ª fotografia, a tal dos 40 minutos, esta que agora vos mostro, o vento amainou um pouco, o mar acalmou e por breves momentos, durante uns dois minutos, um raio de luar incidiu sobre a Ursa, num momento de beleza divina e inesquecível e que dalguma forma se reproduz aqui.

E foi assim que, com a ajuda dos Santos, se fez...

 

 

 

Artigo publicado na revista "Super Foto Prática" de Dezembro de 2004.

*O Zé a que me refiro é o meu bom amigo e grande fotógrafo, José Marafona, a cuja página recomendo visita (www.josemarafona.com)...

 

Zacarias Pereira da Mata

www.zacariasdamata.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Zacarias Pereira da Mata em 18:47:26 | Link permanente | Comments (0) |