Tuesday, December 12, 2006

Histórias de Povo

Se calhar, em teoria, até têm razão as pessoas que defendem que as imagens da Net têm que ter autorização prévia para poderem ser utilizadas. O ideal seria, de facto, que assim fosse…

Não é possível nos tempos que correm que isso aconteça, prova-o a prática. Este assunto - eu sei - daria pano para mangas…

Bem, de qualquer forma, para mim, na minha cabeça, este assunto está arrumado, i.e., basta-me que não utilizem as imagens para fins comerciais e que indiquem o nome do autor…

… e depois há coisas como esta que publico hoje que eu não teria oportunidade de ler, se não fosse o facto de terem utilizado uma imagem minha…

Assim sendo darei hoje início à publicação de um ou outro trabalho constante em blogs em que foram utilizadas fotos minhas para ilustração ou que até tenham inspirado os textos…

Começo por este da “Amita I” que tem dois belíssimos blogs onde constam algumas autênticas joias:

branco-e-preto.blogspot.com

brancoepreto.blogs.sapo.pt (old blog)

 

Pontes do Porto #2

Trôpego, desalinhado
Trazendo o peso dos anos
Metidos na algibeira
Lá vinha o Zé, esgotado
Em seu passo arrastado
Descendo a escadaria
De pedra escura e fria
Para os lados da Ribeira

“Medo? Não! O Zé não tinha!”
O consenso era geral
Na tasca do Ti Jaquim
Tão cheia de pessoal
Todas as vozes se abriam
Numa algazarra sem fim

Inda puto endiabrado
Danado p’rá brincadeira
De fundilhos remendados
Surripiava o que via
Pão, fruta, rebuçados
Tremoços às vendedeiras
E de olhar amarotado
Assobiava e sorria

Medo?! O Zé não tinha!
Clamavam a um tempo certo
Era um líder, era o chefe
Do séquito que o seguia
Quando começava a feira

Chegada a puberdade
Em abono da verdade
Justiça lhe seja feita
Não havia rapariga
Que não caísse na graça
Daquele olhar trocista
Da sua meiguice inata
A que a bondade sujeita

Ora afoito ora arredio
Sua sorte foi tentar
Tornou-se embarcadiço
Do bacalhau luzidio
No Norte que se diz mar
Entre choros e desditas
Nos lenços das belas Marias
Acenando pelo cais

Imigrou, sei lá que mais…
O seu rasto se perdeu…
De quando em vez
Uma letra aparecia
Breve e tão fugidia
Que o povo da Ribeira
Murmurava: “Talvez
Apareça nesta vida”
E foi o que aconteceu.

Na tasca do Ti Jaquim
E não sendo vez primeira
Uma interrogação se abria
Então porque assim descia
Trôpego, em desalinho
Quase sem nexo nem tino
A calçada da Ribeira
Se, medo, o Zé não tinha…

Posted by Zacarias Pereira da Mata in 20:30:00
Comments

6 Responses

  1. João Castela Cravo!!! says:

    Está fixe!

  2. Amita I says:

    Olá
    Quero dizer-lhe que tanto a fotografia como o poema ficaram muito mais bonitos aqui e que foi com satisfação que me reli neste espaço. Obrigado pelo carinho.
    Tenho como costume identificar as imagens que adornam os meus poemas; essa Arte não é minha, eu apenas escrevo… e foi graças à sua procura que dei conta do desaparecimento da imagem, da descoberta deste espaço e do outro, o das suas fotografias, de onde saí encantada.
    Confesso que fui lá hoje à procura de uma fotografia do casario do Porto para um poema que acabei de postar neste 3º blog e que encontrei no espaço de um fotógrafo amigo.
    Espero, num futuro mais ou menos próximo, ter o prazer e a honra de novamente incluí-lo num poema meu.
    Um abraço e uma boa semana

  3. Zacarias Pereira da Mata says:

    Amita I,

    Gosto do teu trabalho.

    Quando tiveres algum poema com uma outra imagem, avisa.

    … e obrigado! …

  4. Zacarias Pereira da Mata says:

    Viva Maria João Garcia.

    É uma aagradável surpresa esta sua visita.

    Vou aproveitar, porque sei que me vai concerteza perdoar a audácia, para lhe pedir para utilizar alguns dos seus textos do seu último livro para publicar neste humilde blog de fotografia.

    Muito obrigado pela visita/apoio.

  5. Um belo momento do maravilhoso poema da Amita, enquadrado nesta fabulosa imagem.
    Gostei muito, já quando a visionei no Blogue dela.

    Um abraço a ambos e FELIZ ANO NOVO

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