Friday, January 19, 2007

À deriva

Conforme prometido em artigo anterior aqui fica outro trabalho de que gosto muito em que foi utilizada uma imagem minha para ilustração. É mais um poema da Amita constante no Blog http://branco-e-preto.blogspot.com que só posso reputar de “Excelente”. O título é brilhante, imho. Parabéns Amita.

 

Fotografia constante no portfólio “Quanto do teu sal” de www.zacariasdamata.com

 

Emblemáticas, monocórdicas, arredias
Pelos dias pairam letras e palavras
Numa invasão programada
E de constância interrompida
Trespassando as paredes da casa

E alego convincente
- Amanhã vou!… - Ia…
Se o ontem no presente
Pelo nada se abria

E soldava-as lentas e leves
Num espartilho de sal e pedra
Na certeza desejada e incumprida
Daquele sorver de passos
Vozes, beijos, rever laços
Em lonjura adormecida

Sob a equidistante neblina
Adensada e caminhante
Embalei as velas do nosso barco
Numa serena deriva
Onde verdes peixes cantavam
Nos murmurados solfejos
De um mar de amor, paz e vida

Emblemáticas, monocórdicas, arredias
Dançam letras e palavras
Na lesta terminologia
De fortes correntes de água

posted by amita at 1:12 PM 

Domingo, Janeiro 07, 2007

 

Outros trabalhos deste e de outros autores se seguirão oportunamente.

 

Perafita,19 de Janeiro de 2007

www.zacariasdamata.com

Posted by Zacarias Pereira da Mata at 19:04:45 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, December 12, 2006

Histórias de Povo

Se calhar, em teoria, até têm razão as pessoas que defendem que as imagens da Net têm que ter autorização prévia para poderem ser utilizadas. O ideal seria, de facto, que assim fosse…

Não é possível nos tempos que correm que isso aconteça, prova-o a prática. Este assunto - eu sei - daria pano para mangas…

Bem, de qualquer forma, para mim, na minha cabeça, este assunto está arrumado, i.e., basta-me que não utilizem as imagens para fins comerciais e que indiquem o nome do autor…

… e depois há coisas como esta que publico hoje que eu não teria oportunidade de ler, se não fosse o facto de terem utilizado uma imagem minha…

Assim sendo darei hoje início à publicação de um ou outro trabalho constante em blogs em que foram utilizadas fotos minhas para ilustração ou que até tenham inspirado os textos…

Começo por este da “Amita I” que tem dois belíssimos blogs onde constam algumas autênticas joias:

branco-e-preto.blogspot.com

brancoepreto.blogs.sapo.pt (old blog)

 

Pontes do Porto #2

Trôpego, desalinhado
Trazendo o peso dos anos
Metidos na algibeira
Lá vinha o Zé, esgotado
Em seu passo arrastado
Descendo a escadaria
De pedra escura e fria
Para os lados da Ribeira

“Medo? Não! O Zé não tinha!”
O consenso era geral
Na tasca do Ti Jaquim
Tão cheia de pessoal
Todas as vozes se abriam
Numa algazarra sem fim

Inda puto endiabrado
Danado p’rá brincadeira
De fundilhos remendados
Surripiava o que via
Pão, fruta, rebuçados
Tremoços às vendedeiras
E de olhar amarotado
Assobiava e sorria

Medo?! O Zé não tinha!
Clamavam a um tempo certo
Era um líder, era o chefe
Do séquito que o seguia
Quando começava a feira

Chegada a puberdade
Em abono da verdade
Justiça lhe seja feita
Não havia rapariga
Que não caísse na graça
Daquele olhar trocista
Da sua meiguice inata
A que a bondade sujeita

Ora afoito ora arredio
Sua sorte foi tentar
Tornou-se embarcadiço
Do bacalhau luzidio
No Norte que se diz mar
Entre choros e desditas
Nos lenços das belas Marias
Acenando pelo cais

Imigrou, sei lá que mais…
O seu rasto se perdeu…
De quando em vez
Uma letra aparecia
Breve e tão fugidia
Que o povo da Ribeira
Murmurava: “Talvez
Apareça nesta vida”
E foi o que aconteceu.

Na tasca do Ti Jaquim
E não sendo vez primeira
Uma interrogação se abria
Então porque assim descia
Trôpego, em desalinho
Quase sem nexo nem tino
A calçada da Ribeira
Se, medo, o Zé não tinha…

Posted by Zacarias Pereira da Mata at 20:30:00 | Permalink | Comments (6)