Sunday, November 26, 2006

Boa Nova

… A Boa Nova é um sítio cantado, encantado e que ainda encanta …

 

 

 

Na praia da Boa Nova, um dia
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia
Todo de lápis-lazuli e coral*

 

 

 

 

  *António Nobre (1867-1900)

Nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, a 16 de Agosto de 1867. Completou o ensino preparatório na cidade onde nasceu e em 1888 ingressou na Faculdade de Direito de Coimbra. As duas reprovações sucessivas no 1º ano determinaram, em 1890, a sua ida para Paris, onde frequentou a Escola Livre de Ciências Políticas e a Faculdade de Direito, nesta se licenciando em 1895. Regressando a Portugal com uma pneumonia em estado avançado, fez concurso para a diplomacia, em cujo concurso foi admitido, embora a sua saúde, profundamente abalada, tivesse tornado impossível a sua nomeação para cônsul em Pretória. Colaborou em jornais brasileiros para fazer face à dificuldades financeiras. Autor de poesia filiada no “simbolismo decadentista” (Manuel Pinheiro Chagas chamava-lhe “lamúria babosa”), fora próximo das hostes republicanas e seria Sampaio Bruno a editar os seus versos póstumos. Poeta d’o coração desfeito em tiras, é autor do livro de poemas “Só” - “o mais falado e o mais procurado dos livros” na sua época - “A Torre de Anto”, e “Primeiros Versos”. «Despedidas», edição póstuma, de 1902, compreende os versos escritos de 1893 a 1899, ano que precedeu imediatamente o da morte do poeta. Morreu tuberculoso a 18 de Março de 1900, com 33 anos.

 


© FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

 

 

 

Zacarias Pereira da Mata

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Saturday, November 25, 2006

Nocturno da Ursa

…ou de como se fez com a ajuda dos meus Santos…

 

Os homens da meteorologia tinham previsto tempo enevoado, vento moderado com possibilidade de chuva e vagas de 3 a 4 metros para aquela noite…

Comecei a descida para a praia da Ursa com aquela previsão a remoer-me a cabeça. Recusava-me a aceitar que tinha marcado as férias de forma a coincidir com a lua cheia de Maio e que tinha feito mais de 300 Kms para nada. O Zé*, meu amigo e companheiro desta e de outras aventuras fotográficas, caminhava ao meu lado, preocupado. Conseguia ler-se no entanto no seu semblante que - como eu - acalentava a secreta esperança que, no fim, tudo iria correr bem…

Chegados finalmente à praia, depois duma descida de respeito principalmente quando se carrega uns 30 ou 40 quilos de material e viveres, deparamos com um cenário e tempo magníficos que rápidamente nos fez esquecer as agoirentas previsões. Estavamos já no fim da tarde e não perdemos tempo, tendo de imediato começado a fotografar. Quando dei por ela tinha já gasto dois rolitos de 35mm e outros tantos de 120… O crepúsculo daquele dia tinha estado à minha feição e não o desperdicei…

Com o início da noite chegaram as nuvens, carregadas e feias. Com elas regressaram os meus receios… De facto, não se via a lua e o tão ambicionado luar era, naturalmente, quase inexistente. Para agravar as coisas a intensidade do vento aumentava de minuto a minuto e as vagas cresciam de forma exponencial.

Às duas da manhã, saturado da espera por uma lua que nunca mais descobria, montei o Manfrotto e coloquei-lhe em cima o único equipamento que ainda trabalhava com aquela humidade, a Pentax 6X7. Optei por uma objectiva Takumar de 75mm e pelo meu fiel Provia 100F. Como costumo fazer, abri o diafragma em f:8 e decidi-me, por palpite, por três tempos de exposição, 20, 40 e 60 minutos, longe dos habituais 5, 7 e 10 minutos em situação normal de céu limpo em noite de lua cheia.

Aquela praia, meu Deus, quase não existe na maré cheia… O mar partia a 10 metros e comecei a temer que chegasse ao sítio onde eu estava, apesar de estarmos o mais possível encostados à falésia. Temia por mim e pelo Zé, pelo equipamento e pelas fotos que, entretanto, se iam lentamente formando na película.

Dei por mim a pedir aos meus Santos que o mar não chegasse à falésia, que o tripé conseguisse resistir ao vento e que me dessem dois ou três minutos de verdadeiro luar para dar o necessário relevo à pedra da Ursa, sem o qual, toda a viagem e sacrifício poderiam ser quase em vão.

Eis senão quando, como por milagre, à 2ª fotografia, a tal dos 40 minutos, esta que agora vos mostro, o vento amainou um pouco, o mar acalmou e por breves momentos, durante uns dois minutos, um raio de luar incidiu sobre a Ursa, num momento de beleza divina e inesquecível e que dalguma forma se reproduz aqui.

E foi assim que, com a ajuda dos Santos, se fez…

 

 

 

Artigo publicado na revista “Super Foto Prática” de Dezembro de 2004.

*O Zé a que me refiro é o meu bom amigo e grande fotógrafo, José Marafona, a cuja página recomendo visita (www.josemarafona.com)…

 

Zacarias Pereira da Mata

www.zacariasdamata.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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