Thursday, January 18, 2007

Naufrágio do Veronese versus Luz do Sameiro

 

 

Ainda a propósito do “morrer na praia” e da tragédia da “Luz do Sameiro”, aqui fica um e-mail acabado de receber de um amigo meu a viver no Algarve, genro de uma das figuras mais carismáticas daquela zona, um pescador “campeão”, infelizmente já desaparecido, Mestre Emiliano.

O Albino Monteiro, apesar de viver no Algarve, foi nascido e criado em Matosinhos, Leça da Palmeira (quase meu vizinho). Têm um blog muito interessante, www.mardelevante.blogspot.com , cuja visita recomendo.

Aqui fica então a reprodução do e-mail, sem mais comentários:

 

“Caro Zacarias da Mata,

Partilho completamente a sua revolta pelo sucedido com o LUZ DO SAMEIRO e  
o seu trágico desfecho. Como homem ligado ao mar desde muito cedo (e  
continuo, para mal dos meus pecados) sei perfeitamente o que falhou  
naquele infeliz acontecimento. A prova do que tenho repetidamente afirmado  
está aquí neste artigo do Matosinhos Hoje que recorda o naufágio do  
Veronese há 94 anos. Falharam muitas coisas e por motivos absolutamente  
inaceitáveis, mas a falta de um lança-cabos (que existe a bordo dos nossos  
barcos e é obrigatório por lei) num corpo de bombeiros do litoral ou numa  
capitania, é absolutamente inacreditável. Há 94 anos foi isso que salvou  
mais de 200 passageiros do Veronese. Há quase 1 século salvou-se tanta  
gente em condições muitíssimo mais complicadas, conforme o artigo do  
jornal demonstra ( e lá se vê o foguete que levou o cabo para o navio) e  
utilizando meios muito mais rudimentares. Como é possível que ao fim de  
tantos anos e existindo no mercado aparelhos lança-cabos tão baratos e tão  
fáceis de manejar (é tudo em plástico), que permitem depois utilizar a  
boia-calção num cabo de vai-e-vem, se tenha chegado a este ponto de  
incúria? Como muito bem diz: SÃO OS CÔNAS DESTE PAÍS !
Saudações calorosas desde este canto do Algarve.”

www.matosinhoshoje.com


 

 

Um grande abraço para a toda a família Emiliano de quem tenho profundas saudades.

Ao Albino Monteiro, Leceiro dos quatro costados, para além do abraço que se impôe, segue também os meus agradecimentos pelo e-mail que se reproduziu e que, definitivamente, foi bastante esclarecedor.

 

Perafita, 18 de Janeiro de 2007

www.zacariasdamata.com 

 

 

Posted by Zacarias Pereira da Mata at 20:11:09 | Permalink | No Comments »

Saturday, December 16, 2006

Matosinhos, arrastos e Thousandimages

Matosinhos e as minhas primeiras longas exposições 

 

Hoje as pessoas conhecem Matosinhos como sendo uma cidade nova, com prédios altos e desenvolvida; que fique claro, no entanto, que prédios altos, na interpretação que eu tenho das urbes e da vida, não são sinónimo de desenvolvimento… 

Ora, no início dos anos 70, Matosinhos ainda era uma cidade industrial, que embora já a decair, tinha ainda o maior número de fábricas de conserva de peixe do mundo. Estas fábricas com altas chaminés feitas de tijolo burro misturavam-se  com casas baixas, algumas duma classe média abastada de donos de fábrica, armadores da pesca da sardinha e do arrasto e mestres de pesca…

A Vila  - apesar de Vila era considerada ”cidade” importante -  reconheço hoje, acabava por ter uma arquitectura engraçada, com casas  desenhadas ou inspiradas pelo nosso vizinho, Siza Vieira, e outras que embora com desenho, como a minha, tinham um estilo estranho, com pastilha dos anos 60 a conviver com azulejos da santinha padroeira lá de casa. Para juntar a tudo isto convivia-se com as fábricas da conserva,  com cafés, muitos cafés, com armazéns de peixe, armazéns de redes das várias empresas de pesca do concelho, bares de alterne (o “Moínho Vermelho” foi dos primeiros do país para servir o porto de Leixões em crescimento), confeitarias - a “Primavera” dos Magalhães era uma delícia - e as pujantes marisqueiras, frequentadas por comerciantes, políticos, industriais e artistas (foi lá que eu vi pela primeira vez a Amália), tipo de restauração que tem ainda actualmente o maior sucesso e que nasceu do brilhante cérebro hoteleiro do meu amigo Henrique Torres.

Até algumas “ilhas”, vielas com várias pequenas casas, onde viviam parte dos pescadores, tinham graça apesar de reconhecermos que nem sempre tinham as melhores condições.

Esta confusão, aos meus olhos fotográficos da altura, não tinha lá grande graça (vá-se lá saber porquê?)… No entanto, a partir do princípio da noite, a cidade ganhava uma estranha calma e harmonia, os contrastes esbatiam-se e, mais uma vez aos meus olhos, nascia uma nova cidade, linda, diferente, que eu fotografei à exaustão em P & B. Por causa disso, através de várias tentativas, acabei por aprender a dominar razoávelmente a técnica daquele tipo de fotografia nocturna muito específica. Infelizmente mais de trinta anos depois sobra muito pouco e nada de decente que vos possa ser mostrado….

Numa tarde de Março de 2000, recentemente regressado à fotografia, em conjunto com o Zé Marafona, fui fazer umas fotos à praia de Labruge… A noite nasce ainda cedo em Março e, já no fim da sessão fotográfica, o Zé sugeriu que fossemos ao bar de S. Paio, propriedade dos nossos amigos D. Emília e Sr. Oliveira, beber uma cerveja já que não tinhamos luz para continuar a fotografar. Eu insisti, com esperança de fazer qualquer coisa engraçada…

 Apesar do Zé não estar muito convecido, teimei porque me lembrei de algumas experiências com fotos de arquitectura de Matosinhos que tinha feito em cachopo e que originou a primeira parte deste artigo, e acabei por fazer a primeira foto daquilo a que parte dos membros do Thousandimages, convencionaram chamar actualmente, de forma depreciativa, ”arrasto”, e que aqui vos mostro… 

Crepúsculo de Labruge #1

 

O “arrasto” e o “Thousandimages”

 

Não é meu propósito hoje insistir na técnica das fotografias nocturnas (a maioria das fotografias que se vê por aí, incluindo algumas minhas, até são de crepúsculo) mas sim dizer-vos por que razão não interpreto os meus nocturnos e crepúsculos como fotografias “menores”. Por serem poucas as razões, passo a enunciá-las: 

. Domino razoávelmente a técnica… Hoje em dia, com o advento do digital, porém, há mais gente a dominar a técnica, até com alguma mestria… alguns são membros do “Thousandimages”…

. Deixo que a minha alma se funda com a do ambiente. É estranho isto, mas eu sei que muita gente me compreende…

. Trabalho muito… Normalmente saio arrasado duma sessão fotográfica destas.

. De vez em quando paro uns tempos, principalmente quando começo a ficar saturado…  

. Nunca fiz “arrasto” pelo “arrasto” embora, admito, por vezes, o chamado “arrasto” seja indispensável na composição e/ou para traduzir o que penso e sinto no momento da fotografia.

 

Agora vejam e chamem-lhe “arrastos” se quiserem:

 

Raios de luar

 

Labruge fervente

 

Crepúsculo de Labruge #2

 

Cascatas do Atlântico

 

Neblinas do Marreco 

 Poderia ter escolhido mais uma dúzia de fotos com qualidade semelhante a esta (nem sei se estas serão as minhas melhores deste tema) mas penso que esta amostragem é o bastante até porque tenho outros artigos à volta deste assunto em que terei que utilizar essas outras imagens…

A título de conclusão: Apesar de também me chatearem alguns exageros, já que se colocam demasiadas fotos no site “Thousandimages” à volta deste tema e sobretudo algumas em que o que prevalece, de facto, é o “arrasto” pelo ”arrasto”,  parece-me também que titular de forma depreciativa de “arrasto” algumas excelentes fotos que surgem nos sites não abona quem assim as titula…

Há iguais exageros nas fotos de Nú, PDS, natureza, aves, macros, etc., no entanto, quando surgem fotos razoáveis ou até de qualidade superior não devem ser subestimadas com epítetos depreciativos, só porque pertencem a um determinado tema…

 

Perafita, 16 de Dezembro de 2006

Zacarias Pereira da Mata

www.zacariasdamata.com 

 

Permitam-me desde já realçar este comentário em 17/12/2006 do João Castela Cravo que traduz também, de alguma forma, muito do que eu penso sobre este assunto:

 

“Eu ainda não consegui perceber o que são fotos menores e maiores, ou temas menores e maiores, ou… aliás não quero perceber e gostaria que ninguém percebesse. Há fotos boas segundo determinados preceitos (que até vão mudando), há fotos de que se gosta, há fotos que atingem objectivos presentes na intencionalidade e na função. Cada vez mais a fotografia não é fotografia mas sim fotografias, mas é pena que cada vez mais os fotógrafos se arroguem em defensores da “verdadeira” fotografia, tal como censores da verdadeira fé…

Grande abraço Zacarias e deixa-me dizer que gosto muito dos teus arrastos.”

João Castela Cravo

 

 

 

 

 

 

 

Posted by Zacarias Pereira da Mata at 00:30:00 | Permalink | Comments (8)