Sunday, December 10, 2006

Jacob Maersk, uma foto e uma história…

In short
Name: Jakob Maersk
Date: 29 January 1975
Location: Portugal

Accident area: Entrance to Leixoes harbour, Porto (Portugal)
Ship type: Oil tanker
Date built: 1966
Flag: Danish
Type of pollutant: Iranian crude oil + Bunker C
Quantity spilled: 84,000 tonnes
Reason for spill: grounding

Last update: April 2006

On 29 January 1975 at 12:30 pm, the oil tanker Jakob Maersk hit a sandbank while trying to enter the harbour. A few seconds later, there was an explosion in the engine room. The oil tanker caught fire and broke into three parts. The central and the stern parts sank while the bow part remained afloat. It ran aground on the beach a few days later. The explosions destroyed all the main tanks of the oil tanker and significant quantities of crude oil leaked from the wreck. A certain amount was partially burnt by the fire, another part of the oil was dispersed at sea or washed up on the coast.

On the days when the fire was at its worst, the flames were 100 metres high. The sky above Porto was darkened by a thick black smoke for several days. 7 out of the 17 crew members died during the disaster, as most of them were in the engine room during the explosion. Several inhabitants living in this area were sent to hospital because of the smoke.

A follow-up operation was set up with aerial suveillance patrols. The explosions and the fire raged on the wreck for the two first days, preventing any oil recovery attempt at sea. Collaboration between the Ministry of fisheries, the Army, the Navy, the ship owners, Shell and a large part of the local population allowed rapid action to be taken to limit the damage. A floating boom was installed in the harbour entrance to prevent oil slicks from entering the harbour. A straw barrier surrounding the wreck retained the oil sufficiently until boats had spread dispersants. The most affected beach was the shore immediately adjacent to the Jakob Maersk. Clean-up operations began with the removal of the upper sand layer. Dispersants were also spread on the sand. Wave action facilitated the elimination of oil from the rocks. It was estimated that the fire around the ship burned between 40,000 and 50,000 tonnes of oil, that 25,000 tonnes drifted at sea and nearly 15,000 tonnes were washed up on the beach. Hydrocarbon traces were found on beaches situated 50 km from the wreck. The majority of the ecological damage was observed on the foreshore. In rocky areas, seaweed (Fucus sp.) and molluscs (mussels) were found dead. But growth was resumed a few months later and mussels populations recovered from the accident. No harmful effect was observed on fish populations but the taste of fishery products was altered temporarily. Very few birds were affected, at least in the coastal zone. In the course of the first week, only half a dozen oiled birds were found in north Porto.

The cost of the catastrophe was estimated at 2.8 million dollars by OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development).

 

Centre de Documentation, de Recherche et d’Expérimentations
sur les Pollutions Accidentelles des Eaux

 

 http://www.cedre.fr/

 

 

 

Não me lembro de todos os pormenores, mas confirmo que não foi muito longe da hora de almoço que o acidente ocorreu. 

Tinhamos ouvido na “Matosinhos Pesca”, rádio local Marítima, pela voz do meu amigo Sr. Almeida, que a “Levante”, traineira da pesca da sardinha governada pelo Mestre Augusto (meu pai), chegaria daí a pouco tempo à doca. Adivinhava-se que a maré (pesca) ia ser boa por vários indícios que não cabe aqui detalhar…

Calmamente e porque ainda faltava algum tempo, resolvi, antes de me dirigir à lota, ir primeiro à praia de Matosinhos, onde, seguramente, encontraria o meu pessoal… Bem, de facto encontrei-os, mas a correr esbaforidos pela Rua Tomás Ribeiro acima…  Fiquei um pouco desiludido com estes meus amigos, malta da pesada (Matosinhenses), já com os seus 17/18 anos, da minha idade, alguns ainda mais velhos, que normalmente não tinham medo de nada e que, agora, estavam a fugir… Era ridículo… Resolvi continuar em direcção à praia, apesar de estarem a gritar comigo para que não fosse…

Quando lá cheguei assisti a um espectáculo de Dante, com o horizonte, provávelmente (nestas coisas é preciso cuidado porque a emoção não nos deixa ser precisos), em centenas de metros, a arder. De seguida deram-se várias explosões … Na sequência destes acontecimentos não sei se 6 ou se 7 pessoas morreram a bordo do Jacob… Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto apesar do choro não ser muito habitual em mim… Chorei por quem estava dentro do barco, chorei pelos meus amigos das máquinas e pelo meu cão “Leça” que tinham morrido na traineira “Micéu” (a velha) em situação semelhante uns anos atrás. A “Micéu” velha era a traineira campeã das campeãs que em conjunto com a nova “Micéu” e a  ”Levante”, bem como com mais meia dúzia de traineiras sediadas em Leixões, Peniche e Figueira, eram consideradas como das mais eficientes na pesca do cerco da sardinha.

A ”Levante”, como eu previra, vinha carregada de sardinha, mas resolveu virar a estibordo ao assistir a uma das explosões do Jacob que, ainda por cima, estava exactamente na entrada de Leixões… Os ”mirones” e alguns dos tais meus amigos, por sua vez, com o acalmar das explosões, foram-se aproximando da areia molhada da praia de Matosinhos e cuja companhia acabou por me confortar, mesmo sem que eles soubessem…

Eu era um puto na altura e nem me lembrei de ir buscar a minha 1000 da Asahi Pextax… Limitei-me a filmar aquele espectáculo no dia seguinte em Super 8 e fazer esta foto, penso que umas semanas ou talvez mesmo um mês depois… Esta foto, curiosamente, foi feita no seguimento de uma zanga com a minha namorada que é hoje a minha esposa… Nunca cheguei a saber se a imagem saiu assim, triste, dramática, por causa da poluição que se seguiu (terrível), pelos mortos (tantos neste e tantos noutros desastres semelhantes que tem a ver comigo e com a minha família e que às vezes, vezes de mais, me atormentam) ou se pela zanga de namoradinhos da altura…

Não foi um acontecimento menor. Até há uma década atrás este era considerado um dos 12 acidentes mais graves da história dos petroleiros, com resultados graves para a fauna, talvez não tão graves como o que aconteceu recentemente na Galiza devido ao incêndio que se seguiu às explosões e porque as medidas tomadas na altura, acertadas, impediram que o acidente em termos de poluição atingisse outras proporções… É claro também que os Portugueses, até nas desgraças, coitados, não podem ter destaques… 

 

 Matosinhos, 10 de Dezembro de 2006

Zacarias Pereira da Mata

www.zacariasdamata.com

   

Posted by Zacarias Pereira da Mata at 15:55:43 | Permalink | Comments (5)

Saturday, November 25, 2006

Nocturno da Ursa

…ou de como se fez com a ajuda dos meus Santos…

 

Os homens da meteorologia tinham previsto tempo enevoado, vento moderado com possibilidade de chuva e vagas de 3 a 4 metros para aquela noite…

Comecei a descida para a praia da Ursa com aquela previsão a remoer-me a cabeça. Recusava-me a aceitar que tinha marcado as férias de forma a coincidir com a lua cheia de Maio e que tinha feito mais de 300 Kms para nada. O Zé*, meu amigo e companheiro desta e de outras aventuras fotográficas, caminhava ao meu lado, preocupado. Conseguia ler-se no entanto no seu semblante que - como eu - acalentava a secreta esperança que, no fim, tudo iria correr bem…

Chegados finalmente à praia, depois duma descida de respeito principalmente quando se carrega uns 30 ou 40 quilos de material e viveres, deparamos com um cenário e tempo magníficos que rápidamente nos fez esquecer as agoirentas previsões. Estavamos já no fim da tarde e não perdemos tempo, tendo de imediato começado a fotografar. Quando dei por ela tinha já gasto dois rolitos de 35mm e outros tantos de 120… O crepúsculo daquele dia tinha estado à minha feição e não o desperdicei…

Com o início da noite chegaram as nuvens, carregadas e feias. Com elas regressaram os meus receios… De facto, não se via a lua e o tão ambicionado luar era, naturalmente, quase inexistente. Para agravar as coisas a intensidade do vento aumentava de minuto a minuto e as vagas cresciam de forma exponencial.

Às duas da manhã, saturado da espera por uma lua que nunca mais descobria, montei o Manfrotto e coloquei-lhe em cima o único equipamento que ainda trabalhava com aquela humidade, a Pentax 6X7. Optei por uma objectiva Takumar de 75mm e pelo meu fiel Provia 100F. Como costumo fazer, abri o diafragma em f:8 e decidi-me, por palpite, por três tempos de exposição, 20, 40 e 60 minutos, longe dos habituais 5, 7 e 10 minutos em situação normal de céu limpo em noite de lua cheia.

Aquela praia, meu Deus, quase não existe na maré cheia… O mar partia a 10 metros e comecei a temer que chegasse ao sítio onde eu estava, apesar de estarmos o mais possível encostados à falésia. Temia por mim e pelo Zé, pelo equipamento e pelas fotos que, entretanto, se iam lentamente formando na película.

Dei por mim a pedir aos meus Santos que o mar não chegasse à falésia, que o tripé conseguisse resistir ao vento e que me dessem dois ou três minutos de verdadeiro luar para dar o necessário relevo à pedra da Ursa, sem o qual, toda a viagem e sacrifício poderiam ser quase em vão.

Eis senão quando, como por milagre, à 2ª fotografia, a tal dos 40 minutos, esta que agora vos mostro, o vento amainou um pouco, o mar acalmou e por breves momentos, durante uns dois minutos, um raio de luar incidiu sobre a Ursa, num momento de beleza divina e inesquecível e que dalguma forma se reproduz aqui.

E foi assim que, com a ajuda dos Santos, se fez…

 

 

 

Artigo publicado na revista “Super Foto Prática” de Dezembro de 2004.

*O Zé a que me refiro é o meu bom amigo e grande fotógrafo, José Marafona, a cuja página recomendo visita (www.josemarafona.com)…

 

Zacarias Pereira da Mata

www.zacariasdamata.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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