Eterno
Gosto de macro!
Bem sei que o que se interpreta como a ”grande macro” é aquela fotografia do bicho perfeitamente congelado, de preferência sem desfoques e com um daqueles títulos latinos muito pomposos e complicados…
Às vezes quase que dá a impressão que o bicho teve que estar primeiro no frigorífico antes de ser fotografado numa sessão de estúdio… Ora, o melhor que conheço a este nível, porém, nem sempre é a fotografia 100% focada e isenta de movimentos…
… como em toda a Fotografia, também na macro tem que lá haver qualquer coisa mais, têm que ter luz e alma para que a imagem possa ascender ao estatuto de Fotografia (com “F” grande)…
E agora a estorinha sobre a foto que hoje se apresenta, com aqueles condimentos técnicos que - eu sei - a malta gosta:
Já eram nove horas da tardinha e o jantar esperava-me. Regressava para casa em passo acelerado embora ainda atento às plantas que grassam nas bermas do meu conhecido caminho de volta, na esperança de encontrar uma oportunidade de um último disparo que salvasse a sessão de fotografia daquele fim de tarde.
Do bicho que agora apresento, pouco mais sei que têm apenas uns milimetros e que olhava para sudoeste. Nem sei como é que o vi…
Com a luz já tão fraca, cautelarmente, sem perder tempo, aumentei a sensibilidade para 400 ISO, escancarei o diafragma da minha Sigma 150 macro e coloquei-me em posição de quase contra-luz.
Foi neste momento que ao focar pela primeira vez me apercebi que havia ali algo de intangível, quase irreal… Naqueles segundos que demoraram os 7 disparos a que recorri para conseguir um fotograma técnicamente comestível, i.e., que não estivesse totalmente desfocado ou tremido, ocorreu-me subitamente uma conversa tida há dias com os meus amigos fotógrafos Zé Marafona e Ricardo Araújo sobre o tempo. Foi apenas um ”flash” mas voltou-se-me a pôr essa eterna questão, debatida até à exaustão por artistas e cientistas, sobre a relatividade do tempo.
… Como que ficou claro para mim ao ver o bicho naquela posição e com aquela luz que se pode viver uma eternidade num minuto…
Depois foi chegar a casa, aceitar o habitual sermão da Fernanda, minha companheira de sempre, por me ter atrasado para jantar. Ela não me vai perdoar por eu dizer isto, mas quase que não a ouvia de tão ansioso estar por me sentar à frente do computador para ver o que tinha feito… E o que fiz parece-me bem, confirmando a intuição no momento do disparo, como aliás já tinha acontecido noutra meia dúzia das minhas fotos que mais gosto, que se conseguisse algo mínimamente focado e não demasiadamente tremido, então teria feito uma fotografia. Aos meus olhos, pelo meu gosto e pela minha sensibilidade, pelo que a imagem me diz, acho que consegui uma Fotografia.
Porque eu sei que alguns dos fotógrafos mais novos gostam de saber um pouco mais, devo dizer que a edição foi feita quase exclusivamente com o “revelador raw”. Aumentei ligeiramente os valores do “Shadow contrast”, “Hilight contrast” e saturação de cor e utilizei a ferramenta de redução de “hot pixel”, necessária quando se utiliza valores de ISO alto e condições de luz débeis.
A fotografia foi feita ontem e resolvi mostrá-la quase em primeira mão ao meu amigo, colega, escritor e irmão de fotógrafo, Pedro Vasconcelos, que partilhando comigo a ideia de que havia ali algo, resolveu presentear-me com este poema que acho delicioso… Gostei tanto desta parceria que - assim o Pedro o queira - a retomaremos brevemente…
Ora vejam e ouçam esta canção do Eterno…
Eterno,
O que não teve princípio e não há-de ter fim
O que dura para sempre sendo o sempre o que dura em mim
O que está fora do tempo e fora do devir
O que foge no horizonte e nunca torna a vir.
E o que é inalterável; enorme; desmedido e afamado?
Também esse poderá ser o seu significado?
O imortal e Pai Eterno ou Deus, Morte e sono enfermo
Todo o espaço nunca medido entre céu, terra e inferno
Ou toda a dor contida no luto de um coração materno
Tudo isto é amor. Tudo isto é eterno.
Sobre o Dr. Pedro Vasconcelos e a sua escrita falaremos um pouco mais num outro artigo ainda em preparação, que envolve, como se espera num blog como este, fotografia.
Agradecendo toda a receptividade que o público em geral e os meus amigos em particular tem tido aos meus humildes artigos (receptividade que muito me envaidece), demonstrada quer pelo número de visitas quer pelos telefonemas inquirindo da razão de um período tão longo sem que o blog fosse refrescado, quero desde já dizer-vos que estão em preparação mais dois artigos, um sobre os garranos do Gerês e outro sobre a fotografia dos anos 50 (cf. prometido), este quase só com imagens digitalizadas dos anuários “Rollei” da época.
Perafita, 12 de Junho de 2007

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